quinta-feira, 5 de janeiro de 2017

O Iate Real


João Pólvora
Publicado n'O Sesimbrense
em 3.Fevereiro.1929

Foi isto há bastantes anos! (1) O dinheiro chegava a todos. Os sapateiros no dia do casamento iam à igreja de sobrecasaca e chapéu fino, e as raparigas bonitas da minha terra, de simples vestidinhos de chita ou riscado, faziam arregalar o olho à rapaziada brejeira do tempo.

Sesimbra vivia quase ignorada do mundo. Os meios de transporte em ronceiras diligências até Cacilhas, constituíam um suplício tremendo! Quase um dia para chegarmos à Capital com os ossos fora do alinhamento e duzentas pancadas no parceiro do banco fronteiro!... O maior número de visitantes provinha dos lados da Costa da Caparica, à cata de lugar nas artes, indo asilar nas lojas do João Marinheiro e Rafael Rodrigo. O Monarca D. Carlos e a Rainha Amélia, passavam amiúde em frente de Sesimbra no seu Iate, em visita ao Sanatório do Outão (2), mas o barco nunca fundeava na nossa linda baía, mais tarde o ancoradouro predilecto do Rei, após os seus estudos oceanográficos na época propícia. Certo dia passou no nosso porto, como de costume, o iate real, de regresso do Outão, e em frente do Espichel ordenaram por sinais à estação semafórica, que avisassem as autoridades de Sesimbra, de que o iate ia retroceder, para desembarcar ali uma pessoa de bordo. Daquela estação comunicaram porém que o Rei ia desembarcar na praia de Sesimbra!

A notícia correu veloz pela vila, e dentro em pouco quase toda a população comentava o facto, fantasiando a seu belo prazer tão inesperada resolução do Chefe do Estado! O contentamento era geral, e toda a gente saiu de casa para ir à praia presenciar a chegada do Rei.

As autoridades ordenavam à Câmara para mandar proceder a toda a pressa, à limpeza das ruas, pelos Almeidas do burgo, às ordem do simpático «Pisa-Flores» As tradicionais cambadas de carapaus secos e cães do monte, retiraram a penates, e o elemento oficial ordenou a mobilização de quantas casacas e penantes existiam nas gavetas da cómodas e sótãos, transformados em museus de antiguidades. O velho fogueteiro Joaquim Angélico corria pressuroso em direcção à Fortaleza, sobraçando enorme molho de foguetes, e o povoléu em desordenada correria, descia à praia para saudar o régio visitante. Fecharam-se estabelecimentos, paralisaram oficinas, envergaram-se as melhores andainas, compuseram-se os famosos colarinhos à «Pinga Azeite» e, mal o iate surgiu na ponta do Forte do Cavalo, os foguetes estalaram no ar em sucessivas girândolas, anunciando a chegada de D. Carlos de Bragança! No Forte, o Dr. Beles (3) , rodeado das pessoas mais gradas da terra, não parava um momento, concedendo, consecutivamente, o seu binóculo aos presentes.

O barco fundeou na baía, lançando à água um escaler, no qual tomou assento à popa, um homem bastante nutrido. Alguém que assestara nesse momento o binóculo do Dr. Beles em direcção ao escaler, exclama entusiasmado: – É D. Carlos! E que lindo manto ele traz nos ombros!

Quatro garbosos marinheiros conduzem o escaler à terra em rápidas e certeiras remadas. A multidão insofrida comprimia-se a custo no local do desembarque. Ansiosa por ver o Rei, que muitos ainda não tinham visto senão nas moedas de cobre em circulação. Os foguetes continuavam estralejando no ar em enorme quantidade. A alegria era indescritível. Mas… chegada à terra a frágil embarcação, tudo caiu no mais profundo silêncio, redobrando de veemente curiosidade. O personagem que todos julgavam ser o Rei D. Carlos, não passava dum pobre maquinista ou fogueiro que caíra a bordo, partindo um braço e vinha dar entrada no hospital, gemendo com dores, embrulhado numa manta!!! (4)

A multidão debandou rapidamente comentando o caso entre a risota dos mais galhofeiros mirones. O fogueteiro cuspiu no morrão exasperado e alguns casacas, mal contendo a sua arrelia pelo fiasco da recepção desandaram a caminho de casa, taciturnos e melancólicos, a passo cadenciado de gatos pingados que regressam dum enterro no Cemitério dos Prazeres ou do Alto de S. João! E nesta ridícula farsa apenas se salvou o Sol-e-dó que à última hora resolveu não comparecer, por falta de sapatilhas… na flauta do Zé Carvalho…

João Pólvora
Seixal, Janeiro de 1929 (5)


Notas
(1) - O episódio descrito nesta crónica ocorreu em 1891 e foi noticiado pelo jornal republicano A Vanguarda na edição de 15 de Junho daquele ano – veja-se a imagem reproduzida abaixo.

(2) - O Sanatório do Outão só foi criado em 1900. Em rigor, estas reais deslocações marítimas seriam em veraneio, até à Torre do Outão, na entrada da barra de Setúbal, que tinha sido parcialmente adaptada a aposentos reais. O jornal A Vanguarda de 10 de Agosto de 1892 noticia: “As majestades no Outão / Não só se diz que as majestades vão passear até Leiria, Marinha Grande, Batalha e Alcobaça, como noticiam também as folhas palacianas, que o rei e sua família tencionam ir passar algum tempo à Torre do Outão, preparando os habitantes de Setúbal grandes festejos para a sua recepção! Vamos, pois, ter a continuação das desbragadas despesas que há dois anos tornaram célebre a velha torre, transformada em real vivenda por feminil capricho!

(3) - José Marciano Correia Beles, médico municipal. Faleceu em 31-1-1895.

(4) - A notícia do jornal A Vanguarda, referida na nota 1, diz que “desembarcou um fogueiro com um dos braços completamente esmigalhado até ao cotovelo.

(5) - João Gomes Pólvora nasceu em Sesimbra, onde exerceu a profissão de soldador nas fábricas de conserva de peixe. Foi dirigente sindical, tendo feito parte da Direcção da Associação de Classe dos Soldadores. Mais tarde viria a instalar-se no Seixal, como industrial conserveiro. A fábrica de conservas Pólvora, Lda., funcionou no edifício que foi posteriormente adquirido pela Câmara Municipal para instalar a esquadra da Polícia de Segurança Pública e a Repartição de Finanças
Activista político durante a 1ª República, fez parte do Partido Republicano Nacionalista e, já durante a ditadura militar, integrou a Comissão Concelhia da Aliança Republicano-Socialista (1931), que juntava diversas correntes políticas republicanas com o objectivo de fazer oposição política à ditadura militar e ao salazarismo.
Notícia do jornal A Vanguarda de 15-6-1891.

terça-feira, 3 de janeiro de 2017

O Leão da Farmácia

A farmácia Leão, actualmente localizada na avenida da Liberdade, em sesimbra, teve a sua origem no século 19, pela mão do Sesimbrense Francisco Pinto de Leão, nascido em 1817, e que obteve o diploma para o exercício das funções de farmacêutico em 1840.
Registo de baptismo de Francisco Pinto de Leão, em 1817.

A família Pinto Leão foi uma das de maior relevo em Sesimbra, remontando a sua genealogia até a uma linhagem de cristãos-novos – ou seja, de judeus convertidos – que foram perseguidos pela Inquisição no início do século 17. Assim, no dia 29 de Março de 1620, foi presa em Sesimbra Beatriz Mendes de Leão, bem como seu sobrinho, o médico António Mendes de Matos. Beatriz Mendes de Leão era irmã de Álvaro de Leão, e também de Manuel Mendes, tendo este último a profissão de médico. A própria Beatriz casou com um médico de Azeitão, João Serrão. As profissões médicas, nessa época, andavam muito associadas aos judeus. Curiosamente, já no século 19, é um outro membro desta família, António Pinto Leão de Oliveira, que também se vai destacar como médico.
Em frente, o prédio onde funcionou a farmácia Leão, e que foi depois demolido
para abertura da avenida da Liberdade. À direita, o prédio do "Pinto Leão".

António Pinto Leão de Oliveira herdou da mãe os apelidos Pinto Leão. O pai, Julião José de Oliveira, foi um conhecido armador sesimbrense, proprietário e mandador de armações de pesca, cuja actividade está documentada entre os anos 1861 e 1870 – precisamente a época em que se começaram a desenvolver as armações pelo sistema valenciano, sucedendo às antigas armações redondas, onde a família Pinto Leão tinha igualmente pergaminhos.

A família Pinto Leão foi proprietária dos terrenos a poente do edifício da Câmara Municipal, onde ainda hoje se encontra o edifício popularmente conhecido como "prédio do Pinto Leão", na antiga rua Direita, actual rua da República – uma construção de finais do século 19 que, durante muito tempo, foi o edifício mais alto de Sesimbra. Não é por isso de admirar que inicialmente a farmácia Leão se tenha instalado nessa correnteza, a poente do prédio do Pinto Leão. Com a demolição de edifícios para abertura da avenida da Liberdade, a farmácia passou para o rés-do-chão do prédio da família Giro, onde ainda hoje se encontra.
Prédio do "Pinto Leão", com fachada para a rua da República
À direita, a rua Leão de Oliveira.

No final do século 19, a farmácia Leão rivalizava com a farmácia Lopes – que também ainda hoje existe – não só no domínio farmacêutico, mas também na arena política, pois as farmácias tornaram-se locais de encontro e de conspiração política, polarizando-se em torno das correntes partidárias que se digladiaram em Sesimbra: os "coques", do Partido Progressista, e os "trapilhas", do Partido Regenerador. A farmácia Leão alinhava pelos "coques", e a farmácia Lopes pelos "trapilhas".
Registo de Francisco Pinto de Leão na Sociedade Pharmaceutica Luzitana (século 19).

Quando se deu a "invasão" de Sesimbra pelos capitalistas vindos de fora, que investiram nas armações valencianas – Caldeiras, Frades, Ruminas, Fernandes, Loureiros – o escol tradicional da pesca sesimbrense resistiu, apoiando-se na antiga Confraria do Espírito Santo dos Mareantes de Sesimbra. Os capitalistas associaram-se ao Partido Progressista, dirigido localmente pela família Caldeira da Costa, e os dirigentes da Confraria ao Partido Regenerador, dirigido localmente pela família Gomes Pólvora.

Esta confrontação partidária assumiu grande violência em 1890, quando os Progressistas tentaram matar a tiro o Administrador do Concelho, de orientação Regeneradora. Em 1897, a Confraria viria a ser tomada de "assalto" pelos progressistas, que a transformaram numa Associação de Socorros Mútuos Marítima e Terrestre, que ainda sobrevive com esta designação. Extinta a Confraria, a sua farmácia privativa acabaria por ficar na posse do farmacêutico contratado, Manuel Mendes Lopes, originário de Ansião. O seu filho, Virgílio de Mesquita Lopes, viria a ser vereador da Câmara, pelo Partido Regenerador, no mandato de 1901-1903, e presidente da Câmara – agora já pelo Partido Democrático – no mandato de 1914 a 1916. Foi também um destacado membro da Maçonaria em Sesimbra.

No início do século XX, ainda essa polarização partidária das farmácias locais se mantinha, com a farmácia Lopes a assumir uma orientação mais à esquerda, e a farmácia Leão mais à direita e mais conservadora. Após o golpe militar conservador de 1926, que instaurou uma ditadura de direita, numa das primeiras revoltas contra a nova situação, em Fevereiro de 1927, esteve implicado o farmacêutico Virgílio de Mesquita Lopes, que esteve preso e prestes a seguir na leva de deportados.

No extremo oposto do arco político, esteve o auxiliar de farmácia e enfermeiro, Emídio de Sena Raposo, oriundo de Mouronho (São Pedro do Sul) e que desenvolveu a sua actividade profissional na farmácia Leão. Em 1913 fez parte da lista candidata à Câmara Municipal de Sesimbra pela facção Unionista do Partido Republicano, sendo eleito, no contingente da "minoria", para o mandato de 1914-1916. Desempenhou um papel bastante activo na oposição a Virgílio de Mesquita Lopes, apresentando diversas propostas, nomeadamente que ao jardim fosse dado o nome do último presidente de Câmara monárquico – António Peixoto Correia, proposta que foi recusada –, para que o feriado municipal fosse no dia de doação do Foral de Sesimbra, e ainda para que fosse criada uma escola mista na aldeia das Pedreiras. Emídio de Sena Raposo, no entanto, viria a falecer ainda durante o ano de 1914, no início de Setembro.

Um jovem sesimbrense que iniciou a sua actividade profissional na farmácia Leão foi Rafael Alves Monteiro, que veio a posicionar-se ideologicamente à direita, apoiante do Estado Novo, embora tenha depois entrado em choque com as autoridades salazaristas, mas sem abandonar o seu posicionamento conservador e nacionalista.

Hoje as farmácias "de cima" e "de baixo" – como também chegaram a ser conhecidas – já não têm cor partidária, mas conservam-se ainda como uma memória viva dos conturbados anos de implantação da democracia parlamentar em Sesimbra.
João Augusto Aldeia

quarta-feira, 30 de novembro de 2016

Peixe Agulha – e não Espadarte!

A "pesca desportiva do espadarte" foi praticada em Sesimbra desde 1954, ano em que foram capturados os primeiros exemplares: o primeiro por Manuel Frade, seguindo-se Arsénio Cordeiro e Fernando Teotónio Pereira. Pelo menos estas duas últimas capturas, tiveram o auxílio do pescador sesimbrense António Vicente ("Guiné").

Apesar do discurso oficial afirmar que se trata de uma pesca "emblemática" de Sesimbra, durou pouco tempo. O ano de maiores capturas foi o de 1958, com 19 peixes, mas a partir daí foram declinando. O ano de 1974, com 5 capturas, pode ser considerado como o último desta pesca, que durou apenas 20 anos. Desde então apenas se registaram capturas esporádicas.

Os pioneiros desta pesca, originários de Lisboa, designaram a espécie como Espadarte, mas em Sesimbra o seu nome era Peixe Agulha.

Consultando os manuscritos de Constantino Lacerda Lobo, redigidos no século 19, verificamos que a designação desta espécie – cujo nome científico é Xiphias Gladius – era, de facto, a de Peixe Agulha. Lacerda Lobo, que recolheu informações, sobretudo junto de pescadores da costa algarvia, escreveu:
  Fazem os Pescadores de Olhão a matança deste peixe em todos os meses do ano no mesmo mar aonde fazem a das Pescadas na profundidade de 100, até 125 braças de água, e distância da terra duas até duas léguas e meia. Não usam de outro aparelho mais do que do Anzol. Encontra-se por toda a Costa. Corta e estraga os Aparelhos e quando morre algum pesa ordinariamente cinco ou seis arrobas.

Manuscrito de Lacerda Lobo onde descreve a pesca do Peixe Agulha
(Biblioteca Nacional)

Nas notas de Lacerda Lobo encontram-se duas espécies com o nome Espadarte: o Espadarte ou Peixe Serra (nome científico, Squalus Pristis) e o Espadarte (nome científico, Esox Brasiliensis). Vejamos qual o "retrato" destas espécies:

Espadarte ou Peixe Serra (Squalus Pristis)

Espadarte (Esox Brasiliensis)


Portanto, os pescadores de Sesimbra estavam certos quando designavam o Xiphias Gladius como Peixe Agulha, e os lisboetas que aqui desenvolveram a sua pesca desportiva, enganaram-se provavelmente na designação, ou então não lhes agradou o nome de Peixe Agulha, optando pela mais romântica designação de Espadarte.

Com o desenvolvimento desta pesca, o sesimbrense José Pinto Braz pensou no seu aproveitamento turístico, e inaugurou, em 1957 (ou seja, três anos depois do início da pesca), a Pensão Espadarte, num edifício já em construção e destinado a habitação e comércio (no rés-do-chão). Mais tarde o estabelecimento obteria a classificação de hotel.

A promoção feita por José Pinto Braz desta pescaria, sobretudo no norte da Europa, em 1962, integrando-se nas missões de promoção turística de iniciativa do Governo, atraiu a Sesimbra grande número de turistas estrangeiros, entre os quais se destacou o francês Pierre Clostermann, que aqui acabou por adquirir uma residência e um barco, só para a prática desta pesca. Pierre Clostermann viria a realizar, em 1973, uma palestra no Clube Sesimbrense (Grémio), onde propôs a criação de um Parque Marítimo na Baía de Sesimbra, que depois viria a ser promovido pela Liga dos Amigos de Sesimbra, numa campanha coordenada por Rafael Monteiro e Orlando Vitorino.

Arsénio Cordeiro viria a escrever um livro sobre esta pesca, centrado sobretudo nos aspectos técnicos da captura, onde não deixa de homenagear os pescadores sesimbrense que, manobrando as suas aiolas, desempenhavam um papel essencial nesta pescaria.

A propósito da pesca do Peixe Agulha, tem de se referir a família Ratinhos, pescadores sesimbrenses, que apuraram a técnica de captura desta espécie com arpão, chegando a apanhar vários exemplares num só dia, sendo muito mais produtivos do que as demoradas e espaçadas capturas dos pescadores desportivos.
Dois Peixes Agulha capturados com arpão pela família Ratinhos.

sexta-feira, 21 de outubro de 2016

A epidemia de cólera de 1833

A epidemia de cólera de 1833 atingiu seriamente Sesimbra. Nos cinco anos anteriores, a média anual de mortes, nesta vila, rondava as 92 pessoas — e, neste número, pesava bastante a mortalidade infantil. Porém, em 1933, estão registadas as mortes de 286 pessoas: mas trata-se de um valor subavaliado. O próprio padre encarregado deste registo escreveu que, a este número, se deveriam somar mais 200 mortes, que não chegaram a ficar registadas no livro da paróquia de Santiago. Ou seja: no total, um número de mortes superior a 5 vezes ao que era normal.

"Morreram pouco mais ou menos este ano d'ambos os sexos
— 286, isto é, os que aqui se acham descritos; porém,
morreram muitos mais, andarão por 486 — e que não houve
ocasião de descrever todos, que morreram pela cólera."

O Padre Joaquim Pedro Cardoso.

A cólera já grassava no Norte da Europa desde o ano anterior e sabia-se que inevitavelmente chegaria aos países ibéricos, e essa chegada deve ter sido precipitada pelas movimentações de tropas da guerra civil portuguesa. Manifestou-se, no início de 1933, no porto de Vigo, na Galiza, mas rapidamente se espalhou pela península.

Pelos livros da paróquia de Santiago, verifica-se que o número de mortes começou a aumentar no final de Maio, e que só no mês de Junho se registaram 200 mortes: um número igualmente subavaliado pois, perante a avalanche de vítimas, deixou de se registar o falecimento de recém-nascidos. O gráfico anterior permite ver que foi sobretudo nas primeiras semanas de Junho que a epidemia vitimou os Sesimbrenses. No entanto, entre os dias 29 de Julho e 1 de Outubro não foi feito qualquer registo e, por isso, fica a dúvida sobre o que se terá passado nesse período.

Uma das vítimas foi o doutor Francisco Rodrigues Miranda, médico do partido de Azeitão, enviado por ordem do Governo para tratar dos doentes da vila de Sesimbra, e que morreria da mesma enfermidade a 13 de Junho de 1833.


Voto da Câmara de Lisboa, em 5 de Julho de 1833, para realização de uma
procissão de penitência, "à vista da calamitosa epidemia, que tão
mortífera se tem feito nesta Capital, e muitas partes do Reino".
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sexta-feira, 8 de julho de 2016

Forte do Cavalo:
primeiro parque municipal de campismo em Portugal
Campistas na Mata do Forte do Cavalo
(imagem cedida por Luís Filipe Cagica Pinto.)
.
A partir da década de 1930, a Câmara Municipal de Sesimbra iniciou um extenso programa de arborização, para "repovoamento florestal das escalvadas encostas que emolduram esta vila". A zona em redor do Forte do Cavalo (ou de S. Teodósio), foi uma das áreas escolhidas para este programa de arborização, nascendo assim a Mata do Forte do Cavalo. Quando o turismo se começou a popularizar em Sesimbra, foi ali que se instalaram muitos campistas, sobretudo depois que a construção do molhe do porto de abrigo criou a "praia da doca".

Formada em Dezembro de 1951, a Liga dos Amigos do Castelo de Sesimbra teve como uma das suas primeiras iniciativas, a de dotar a Mata do Forte do Cavalo com instalações de apoio aos veraneantes que ali acampavam. A Câmara construiu o equipamento, a partir dum projecto oferecido por João Baptista de Gouveia ("Jojó"), membro da Liga, incluindo: instalações sanitárias, duches, amplos lavatórios e um grande piso exterior abastecido por quatro torneiras, para lavagens diversas.

As instalações foram inauguradas em 31 de Agosto de 1952, com a presença do Presidente da Federação Portuguesa de Campismo, Júlio Rodrigues, e do vogal da mesma Federação, Lyon de Castro. Estiveram também presentes: Carlos Freire (director da revista Campismo), Fernando Alves (presidente do Clube de Campismo do Barreiro), João Saldanha (Grupo Estrela), Francisco Abreu (Clube Campista de Lisboa) e Giordano da Saúde (Secção Campista do Grupo Desportivo da Cova da Piedade). Nessa altura, o jornal O Sesimbrense referiu que aquele melhoramento era "o início do arranjo da mata e da sua adaptação a verdadeiro parque de campismo" [O Sesimbrense n.º 37, II série, 7-9-1952]

Poucos dias depois, a Federação Portuguesa de Campismo comunicou à Câmara Municipal de Sesimbra que os seus corpos gerentes tinham aprovado por unanimidade um voto de agradecimento à Câmara "pelas obras realizadas no primeiro parque Municipal de Campismo do País" (1).

Já em 1953, o Club de Campismo de Lisboa comunicou à Câmara de Sesimbra a deliberação da sua Assembleia Geral de "um voto de agradecimento pela brilhante obra realizada em prol do Campismo Nacional na Mata do Forte do Cavalo".




(1) - A Federação Portuguesa de Campismo fora fundada em 1945, e foi devido aos seus esforços que se criaram os primeiros parques campistas em Portugal, nomeadamente o parque da Costa de Caparica, em 17-6-1952, num pedaço de mata nacional cedido à Federação, devido a diligências de Francisco Lyon de Castro. O primeiro parque de campismo de iniciativa municipal, no entanto, foi o de Sesimbra.

segunda-feira, 2 de maio de 2016

Pesca Luminosa
Peixe rato (Malacocephalus laevis).
Gravura de Hábitos alimentares do Peixe-rato, de Pedro M. D. Gomes.

Na sessão Academia de Ciências de Lisboa do dia 2 de Novembro de 1911, o académico Baltasar Osório fez uma comunicação sobre “um processo original que os pescadores de Cezimbra empregam há muito tempo para atrair os peixes, e que envolve fenómenos científicos do mais alto interesse”. Tratava-se da pesca denominada ao candil, utilizando uma isca luminosa, por meio dum líquido extraído do peixe rato. Já Baldaque da Silva, em 1891, fizera referência a esta técnica, mas a descrição de Baltasar Osório é mais detalhada, pelo que a reproduzimos mais adiante.

Baltasar Osório (1855-1926) foi um cientista português, ictiologista e naturalista, que também foi director da Secção Zoológica da Secção Zoológica do Museu Bocage – o Museu Nacional de História Natural e da Ciência, localizado na Rua da Escola Politécnica, em Lisboa.

Baltasar Osório viria depois a publicar esta descoberta no livro “Memórias do Museu Bocage”, que transcrevemos a seguir. Neste texto é frequentemente citada a publicação Challenger Report: trata-se de uma obra em vários volumes, resultado da viagem de investigação realizada a bordo do navio britânico Challenger, nos anos de 1873 a 1876.
Exemplares do Museu Nacional de História Natural e da Ciência


Fenómenos de fosforescência manifestados
num líquido extraído dum peixe
da profundidade do Oceano
Baltasar Osório

Os pescadores de Cezimbra empregam há muitos anos, para atrair os peixes, um processo que é sem dúvida original, e que me despertou a ideia de intentar um certo número de investigações científicas, cujos resultados, por enquanto muito incompletos, por falta de material necessário para a continuação dos meus estudos, me pareceu todavia dever tornar desde já conhecidos, por serem muito interessantes.

Exporei em primeiro lugar a notícia dos factos colhidos directamente da narrativa dos pescadores.

Descobriram eles, há séculos? Como? Quem sabe? que um peixe que vive no oceano, a uma profundidade que pelas indicações que me deram, pode calcular-se entre trezentos ou quatrocentos metros (1), produzia uma substância luminosa, que depois de espalhada sobre uma camada pouco espessa de tecido muscular, aderente à pele de determinadas espécies de esqualos, Pata-roxa (Scillium canicula, Cuv.), Litão ou Leitão, (Pristiurus Artedi, Risso), Cão do monte (?) a tornam por sua vez luminosa.

Algumas horas depois de terem executado esta operação (que diga-se de passagem, interpretei como uma fase de cultura de bactérias), cortam a pele do esqualo em fragmentos, e prendem um deles a uma linha de pesca, mas de modo que fique superior aos diferentes anzóis que à mesma linha têm ligado; e preparam desta arte muitas linhas quando deliberam ir pescar aos lugares profundos do oceano.

Afirmam também os pescadores que o fenómeno de fosforescência a que tenho aludido, se activa quando a pele do esqualo preparada como disse, e a que chamam candil, está mergulhada na água do mar, e que mesmo a recobra, quando perdida, se a pele não está seca há muitos dias.

Os pescadores quando lhes falta o isco, e não têm portanto outro meio para atrair os peixes, servem-se do candil, e não duvidam dar 4$500 réis, quantia sem dúvida muito elevada para eles, por um exemplar de peixe produtor da substância luminosa, a que de resto, noutras ocasiões, não dão valor absolutamente nenhum, pois nem ao menos se vende para a alimentação.

Eis tudo quanto alcancei saber dos pescadores de Cezimbra, acerca do Peixe-rato, (tal é o nome vulgar) que é abundantíssimo na região do mar onde eles vão à pesca, mas que me não consta que tenha sido colhido em qualquer outro ponto da costa de Portugal. Afirmações bastante vagas dizem-me que se tem colhido também perto de Cascais.

Tendo perguntado aos pescadores, antes de eu mesmo poder verificar o facto, de onde surdia ou provinha a substância luminosa de que eles me falavam, deram-me diferentes opiniões. Disseram-me que provinha do fígado, outros, do fel, um pouco melhor observador, do umbigo.

Procurei, para esclarecer-me, assistir à preparação do candil, destinado à pesca do pargo, da pescada e de outros peixes.

Na minha presença, um pescador premiu com os dedos a região abdominal do peixe portador da substância luminosa, que vi surgir numa papila cupuliforme, negra, como tinta de Nanquim, e que fica abaixo de duas depressões igualmente negras que se encontram na região compreendida entre as barbatanas abdominais e a anal. À luz do dia, ou à luz artificial essa substância tinha o aspecto de um líquido denso, amarelo, turvo. Às escuras, o líquido aludido, assim como toda a região onde ele se tinha derramado, apresentava uma luz azul intensa, assemelhando-se pela cor à do óxido de carbono ardendo, à cor azul que se manifesta em muitas substâncias comburentes ao arderem lenta e incompletamente, ou no princípio de algumas combustões.

Um pescador friccionou um bocado de esqualo, (a pele a que havia ficado aderente uma porção de tecido muscular que previamente tinha tirado em parte, raspando-o), com a região de onde surgia o líquido luminoso. Feito isto dobrou-o de modo a ficarem em contacto as partes friccionadas, talvez com o fim de evitar a acção mais directa do ar, ou para distribuir melhor a substância; não averiguei.

A luminosidade, manifestou-se imediatamente e embora bastante fraca, mantinha-se ainda ao cabo de vinte horas num recinto onde decorreu a experiência e cuja temperatura deveria ser aproximadamente de 20º centigrados, ou um pouco superior (mês de Setembro).

Interessava-me em primeiro lugar determinar a espécie zoológica de que provinha a substância luminosa. Afigurou-se-me que era o Malacocefalus laevis, Lowe, e um estudo demorado a que depois procedi, confirmou-me esta opinião.

Determinada a espécie, devo porém notar que o M. laevis, Lowe, é tido como excessivamente raro por Moreau que lhe assinala como habitat apenas o Mediterrâneo.

Goode and Bean ocupando-se desta espécie (2) citam apenas o exemplar tipo colhido por Lowe na ilha da Madeira, e dizem que Lútken a colheu na costa da Dinamarca. Gunther refere que a expedição celebre do Challenger (3) colheu apenas um indivíduo na costa de Pernambuco a uma profundidade de 250 pés. No Catálogo de Peixes do Museu Britânico (4) aponta ainda um terceiro exemplar, colhido na lha da Madeira, por Johnston.

Eis todas as notícias que consegui alcançar acerca dos exemplares que são mencionados nas obras de ictiologia e destas citações pode a meu ver aferir-se que o Malacocefalus laevis é raro em toda a parte; mas em Cezimbra esta espécie é extremamente vulgar.

Os pescadores o dizem e eu pude convencer-me desta verdade. Ainda há poucos dias comprei aos pescadores seis exemplares. A existência de nome popular duma espécie é, a meu ver, muitas vezes, indicador da sua abundância ou aparecimento frequente.

Donde provem o líquido que contem a substância luminosa a que por mais duma vez tenho aludido neste escrito?

Na região compreendida entre as barbatanas abdominais e a anal existem duas depressões, com o aspecto de manchas negras retintas, como já disse.

A primeira tem uma forma triangular, a segunda uma forma discóide. Adiante desta existe uma protuberância cupuliforme, ou saliência mamilar, não uma depressão oval, como se vê na figura h da estampa XXXIX do t. XXII do Challenger Report. Esta saliência observada à lupa apresenta varias aberturas, uma na parte mais elevada, e outras em outros pontos, e por elas sai, quando premida a região abdominal, o líquido amarelado a que me referi e que se manifesta luminoso na obscuridade. Julgo porém necessário um estudo histológico — talvez o anatómico baste, mas mais acurado, para esclarecimento completo da estrutura do órgão mencionado, tratando-se evidentemente da papila em que nos peixes vem abrir-se o tubo digestivo, o canal condutor das células reprodutoras e a uretra.

Peixe rato (Malacocephalus laevis).

Será a saliência mamilar um órgão especial, uma glândula, destinada a segregar a substância luminosa, que se encontra na terminação do intestino? Embora me pareça que o estudo anatómico rigoroso é indispensável para melhor esclarecimento da opinião, todavia parece-me poder afirmar com segurança que o ânus está colocado no órgão cupuliforme a que me reporto, e não numa depressão como diz Gunther (5).

A falta de exemplares para poder continuar as pesquisas que o meu problema demanda, por terem os pescadores de Cezimbra deixado de ir, nesta época do ano, pescar à região do Oceano a que eles chamam o mar de fora, obrigou-me a adiar para mais tarde esta e outras investigações que todavia são do meu programa. Os exemplares que possuo e que tive de conservar em álcool não me permitem servir-me deles senão para o fim para que os destinei.

Uma pergunta ocorre naturalmente e para ela procurei uma resposta. Que papel, que fim, terá na vida do Malacocefalus laevis o líquido luminoso que dele provém ?

Parece-me admissível e justificável a seguinte hipótese. Vivendo numa grande profundidade onde a treva é absoluta (6) muitos animais marinhos precisam para andarem ou para descobrirem as presas de que se alimentam iluminar um espaço mais ou menos vasto.

Muitos animais que vivem nos oceanos, quer vertebrados, quer invertebrados, são dotados de aparelhos de iluminação que visam naturalmente a algum destes fins. O peixe a que me refiro poderá iluminar, espalhando o líquido luminoso, uma área maior ou menor do fundo do mar e a que os animais de que se nutre são provavelmente atraídos, aproveitando-se ele, colocado numa zona menos esclarecida, desta circunstância para os surpreender e captar.

Disseram-me os pescadores que quando alguns exemplares, mesmo depois de mortos (7), estão, por exemplo, dentro dum balde contendo água do mar, que a água se torna luminosa.

Para verificar se o líquido luminoso emanado do peixe, comunica realmente esta propriedade à água, colhi-o por diversas vezes, premindo lateralmente o abdómen dum dos meus exemplares, com uma agulha de dissecção, que fui lavando repetidamente na água, com que tinha enchido perto da praia, um pequeno tubo de vidro. Colocado o tubo num lugar escuro vi imediatamente que toda a água emitia uma claridade azulada bem visível a alguns metros de distância. Verificaram este facto diversas pessoas a quem convidei para a observar porém era menos intensa, e principalmente menos azulada da que eu tinha notado, observando o líquido não diluído que saia do peixe.

A luz durou pelo menos doze horas, ao cabo das quais fui impedido por diversas circunstâncias de continuar a minha observação; verifiquei todavia que embora atenuada por fim, existiu durante esse tempo. Sendo, portanto, indubitavelmente luminoso o líquido, desejei saber a causa desta propriedade; se era devida a uma substância orgânica semelhante àquela a que muitos animais, quer vertebrados quer invertebrados, devem a fosforescência que exibem, se a um micróbio, a uma bactéria fosforescente em suspensão nele. As minhas observações, incompletas pelos motivos já expostos, permitem-me contudo abalançar-me a formular uma hipótese; exames microscópicos que terei de repetir devem fornecer-me argumentos definitivos para sustentar a minha opinião. Tudo me leva a crer, todavia, que a luz é proveniente duma bactéria vivendo na parte terminal do aparelho digestivo do peixe, como tantas outras que se encontram no intestino doutros animais, realizando mesmo talvez um fenómeno de simbiose, e isto pelas seguintes razões:

1.ª porque das preparações microscópicas embora executadas em condições de somenos rigor, deriva a minha presunção de que são bactérias os corpos que nelas observei;

2.ª porque se é exacta uma observação dos pescadores, já mencionada, isto é, que o fragmento dum peixe sobre que se espalha a substância luminosa obtida do Malacocephalus laevis, Lowe, depois estar exposto ao ar durante alguns dias se torna novamente luminoso quando se mergulha na agua do mar, ou que a luminosidade atenuada recrudesce, quando em idênticas circunstâncias, deve pensar-se, a meu ver, que estes fenómenos podem ser explicados pela revivescência, que é um fenómeno bastante comum aos animais inferiores.

Um outro fenómeno observei, e que é talvez o mais interessante entre todas as pesquisas feitas até agora: é a acção produzida no papel fotográfico pela luz fornecida pelo líquido luminoso.

Coloquei dentro duma cavidade cilíndrica, aberta num fragmento de madeira, um tubo de vidro contendo água do mar colhida na costa, e em que dissolvi o líquido fosforescente, extraído, pelo processo que deixei exposto, directamente do órgão aludido de que ele promana. A parede da cavidade cilíndrica, assim como o fundo, estava completamente coberta de papel fotográfico.

Mantive o tubo contendo a água do mar fosforescente dentro da cavidade cilíndrica, durante vinte horas aproximadamente, porque não me encontrei em condições de verificar mais cedo se o papel tinha sido impressionado, mas julgo que o fenómeno luminoso não devia ter durado tanto tempo, porque ao cabo de doze horas já se tinha atenuado muito num outro tubo encerrando uma porção de líquido igual ao incluído na caixa.

Tendo evitado cuidadosamente que qualquer outra luz que não fosse a que partia da agua fosforescente, actuasse sobre o papel fotográfico, revelei o que tinha colocado dentro da caixa de madeira de paredes espessas que tinha mandado preparar, estando esta ainda, por cautela, encerrada dentro doutra de cartão e cujas paredes serão completamente negras. Verifiquei que o papel tinha sido fortemente impressionado como se estivesse exposto à luz directa do sol, e quase completamente. Havia apenas um espaço aproximadamente circular, de milímetro e meio de diâmetro, na parte do papel que revestia o fundo da cavidade, e pequenas áreas que ficavam na altura da rolha de cortiça que vedava o tubo, em que a luz não tinha actuado.

No prosseguimento do meu estudo pretendo principalmente determinar:

1.º - os caracteres da bactéria a que aludi, acentuando desde já que bactérias luminosas de que tenho notícia nenhuma produz luz, azul com tão grande intensidade pelo menos;
2.º - verificar se a luz que dela parte tem propriedades radioactivas, isto é, se torna fluorescente o alvo coberto de platinocianureto de potássio; se o tubo onde estão encerradas, coberto de papel negro ou coberto de laminas delgadas de metal, de alumínio, por exemplo, impressiona ainda nestas condições o papel fotográfico, etc.
3.º - Desejo determinar qual é o tempo mínimo necessário para o sal de prata ser decomposto.
4.º - Desejo sujeitar à análise espectral a luz emitida. Poderá ela revelar a existência dum novo elemento químico? Se a terra e se a atmosfera têm fornecido a maior parte dos metais e metalóides conhecidos, é licito supor que o mar, pela sua vastidão, ou a superfície da crosta sólida do globo que ele cobre, por mais extensa, contem alguns elementos de que não temos noticia até agora; se se tivessem analisado os gazes que encerra a bexiga-natatória dos peixes, mesmo daqueles que vivem a mais de mil metros de profundidade, ter-se-ia descoberto o Árgon que primeiro se encontrou na, atmosfera.

Não será lícito supor que nos animais marítimos, como nas plantas marítimas, em que se encontram o bromo, o iodo e o cloro, etc., se encontrem outros corpos simples ainda desconhecidos?

Completaremos esta nota com o resultado dos estudos que vamos continuar.

O maior dos exemplares de Malucoceplialus laevis que obtive, até agora, mede mais de 20 polegadas e meia; é maior portanto que o exemplar tipo da espécie descrita por Lowe e existente no Museu britânico pois este mede só 19 polegadas. A descrição de Gunther é tão exacta que julgo desnecessária a junção de qualquer outro carácter para a completar.

Moreau diz que a cauda do peixe é filiforme. Infelizmente todos os exemplares que possuo têm a cauda quebrada; não posso portanto infirmar ou confirmar a existência deste carácter que o Dr. Gunter de resto não menciona.

Notas
(1) — Disse-me um pescador que para colher os peixes luminosos é preciso lançar no mar vinte linhas. Cada linha tem dez braças de comprimento. Cada braça pode calcular-se entre um fio a 1m,60 portanto 20 x 10 x 1,6 = 320 metros. Outro pescador porém, disse-me que não são precisas tantas linhas.
(2) — Oceanic Ichthyology - pág. 416.
(3) — Challenger Report - t. XX pág. 148.
(4) — Loc. cit. t. IV pag. 397.
(5) — The vent (fig. b) is close to the root of the ventrals, wich reach, beyond it; it lies at the end of an oval scaless depression,... Challenger Report - t. XXII pg. 148
(6) — Wyville Thomson diz no seu tão interessante livro “The Depths of the sea” (pág. 45) que a flora marítima é pobremente representada a uma profundidade de 50 pés e que não existe (entirely absent) à profundidade de 200 pés. O peixe de que me ocupo nesta memória vive numa profundidade ainda maior, onde portanto a luz não chega.
(7) — Dizem também que este peixe morre com extrema facilidade.

sexta-feira, 29 de abril de 2016

A Avenida Parque (I)
Em Novembro de 1899, o periódico republicano local, Jornal de Cezimbra, publicou um programa de renovação urbana da vila, onde refere:
"Palpa-se à primeira vista a necessidade de traçar-lhe desde já a planta para duas ruas, largas e paralelas, que mais tarde, seguidas até acima, nos poderia permitir a abertura dum boulevard, embora pequeno, tendo nos extremos dois largos, — o do Caninho [L. Luis de Camões] (…) e o do Pelourinho [L. do Município], tendo este uma rua bem bitolada até cá abaixo ao aterro [L. Bombaldes] e o qual se transformaria numa praça ou mercado de peixe a retalho.» [19-Nov.-1899]

Trata-se da referência mais antiga relacionada com a renovação urbana de Sesimbra, envolvendo a ideia de um boulevard, via ajardinada utilizada para passeio — um conceito que já então aparecia associado ao potencial turístico da vila, para a qual se propunha igualmente um "bom e asseado hotel": o Central, que deveria ficar no Largo dos Valentes [actual Largo da Marinha].

No entanto, quando tomam o poder, em 1910, declaram “não terem os republicanos de Sesimbra programa definido sobre os melhoramentos a fazer”, e nada prometem em termos urbanísticos, a não ser “um pequeno porto de abrigo, um mercado de peixe, um terreno próprio para fábricas, com uma boa canalização de esgotos”.

Nas actas do Senado, em 1914, encontram-se algumas propostas de incidência urbanística, aprovadas por unanimidade, mas que acabam por não concretizar, com excepção do marco fontenário que foi colocado, no final desse ano, no largo da Fonte Nova:

– que se mande estudar e elaborar o preciso projecto para cobertura do ribeiro da Fonte Nova, local para onde, com mais facilidade e economia a vila se pode alargar [Armando Gomes Loureiro em 5-1-1914]

– que em volta da árvore “Bela Sombra” [no jardim da Misericórdia] se faça um banco circular, conforme planta do sr. Abecassis (…) Considerando que o largo denominado Fonte Nova pode ser utilmente aproveitado, transformando-se numa pequena avenida ajardinada, proponho que se coloque um marco fontenário [Virgílio de Mesquita Lopes em 7-1-1914]

– que se levante uma planta da Herdade [Vila Amália], tendo uma “longa e ampla avenida, que começará no Jardim 5 Outubro e acabará na estrada de Santana, não se deixando construir nessa zona” [Armando Gomes Loureiro em 8-1-1914]

Em termos urbanísticos, é um particular quem toma a iniciativa: José Joaquim da Luz Rumina, tendo herdado a grande propriedade da Vila Amália – antiga Herdade foreira à Misericórdia, que ocupa toda a colina a nascente do Ribeiro e a norte da Misericórdia, avança com os seguintes projectos:

— Em 1917, propõe-se construir uma nova sede para o Grémio, colectividade entretanto encerrada na sequência do golpe de Monsanto (Janeiro de 1917). O edifício devia situar-se a poente da Misericórdia (onde está hoje o Lar de Idosos), mas o Grémio entretanto reabre e Rumina opta por construir um salão de espectáculos a norte da Misericórdia, que se viria a transformar na Escola de Santa Joana.

— Em 1919, construção de um novo bairro, também a poente da Misericórdia, que acabará por resultar na abertura das ruas Amália, Caldeira e Monteiro (actualmente, ruas 2 de Abril, Amália Caldeira Monteiro e João da Luz). O projecto é da autoria do engenheiro José Abecassis, que já tinha orientado o projecto de abastecimento de água a Sesimbra. As referidas ruas manter-se-ão privadas até 1923, altura em que serão doadas à Câmara, com uma única condição: a rua Monteiro passar a ser designada como rua Júlia..

— É possível que tenha sido o mesmo José Rumina — embora não existam disso provas — quem mandou elaborar um projecto de uma avenida sobre o ribeiro da Misericórdia, que tem a data de Fevereiro de 1921, já que se tratavam de terrenos de sua propriedade, e nas actas da Câmara não se encontra qualquer referência.

Projecto de 1921, para construção de uma Avenida sobre o leito do ribeiro da Misericórdia.

Perfil da nova avenida: passeios com 1,8 m, duas faixas de rodagem com 4,8 m cada, separador central arborizado com 3,8 m. Largura total da avenida: 17 m. A actual avenida da Liberdade tem apenas 15 m de largura.


Nem nos derradeiros anos da primeira República, nem nos iniciais da ditadura militar, se encontra qualquer iniciativa urbanística digna de relevo. É apenas com a chegada do Capitão Joaquim Preto Chagas à Câmara, em Setembro de 1929, que começa a esboçar-se uma lógica urbanística para o concelho. Numa entrevista a’O Sesimbrense, em 20-10-1929, o novo presidente da Comissão Administrativa afirma que “o que de momento me prende a atenção, ao qual vou dar início, é ao saneamento. A seguir a iluminação. Interessa-me ainda a instalação da Escola de Pesca”
Projecto de prolongamento da avenida marginal a nascente da Fortaleza.


Ainda em Março de 1930, a Câmara comunica à Divisão Hidráulica do Tejo que pretende construir o prolongamento do muro de defesa da praia, construir um outro muro de defesa a jusante do Forte e respectivas rampas de acesso e ampliação do varadouro da Fonte Nova, tudo na vila de Sesimbra, e pede a precisa licença para a execução das obras projectadas, que serão executadas à sua custa.

Em Março de 1931 o Ministro do Comércio decide abrir concurso para a construção da estrada ao molhe de abrigo.

Também em 1931, a Câmara decide a aquisição do edifício da antiga Fábrica de Conservas Lusitana, destinado, em parte, a ser demolido para "alargamento da travessa da República e o restante para mercado e arrecadação municipal". Mas só em 1934 é que o mercado que funcionava ao ar livre no Lago Eusébio Leão, passa a funcionar neste edifício — onde ainda hoje se encontra — o qual, para além da parcela adquirida pela Câmara, ainda englobava o edifício construído em terrenos da família Giro, que a Câmara arrendará.

Em 1933 constrói-se a “passerelle” da «Prainha» para a praia «Água Doce». No ano de 1934 ano dá-se um novo impulso às obras na vila, com a construção e pavimentação da Esplanada do Atlântico e Largo Miguel Bombarda – a obras terão início em Setembro deste ano.

Entretanto, Joaquim Preto Chagas, grande promotor deste projecto, abandonará a Câmara no mês seguinte, regressando em Setembro de 1937, para um segundo mandato que durará até ao final de 1941. Trabalhosamente realizado, o primeiro troço da Esplanada, entre o Largo de Bombaldes e a Fábrica Nacional, acabará por ser demolido pelo “ciclone” de 15 de Fevereiro de 1941.

Em Novembro de 1934 dá-se finalmente por concluído o pavimento da Estrada de acesso ao Porto de Abrigo: segundo revela O Sesimbrense, muita gente, “transportada em veículos, tem ido até aquele aprazível local admirar o belo panorama.” As obras enfrentaram as dificuldades adicionais colocadas, quer pela necessidade de demolir e reconstruir as fachadas de alguns edifícios (como o Salva Vidas e o estaleiro da armação Varanda), posteriormente realizadas, quer pela exigência de todas as armações à beira-mar, de terem uma rampa própria para varação das suas barcas: a praia mais parece um pente, atravessada perpendicularmente pelas numerosas rampas.

Entretanto, a largura de 4,5 metros, na zona da vila, revela-se insuficiente para as necessidades do trânsito, pelo que se delibera encarregar o empreiteiro — a empresa Moniz da Maia Ld.ª — de executar o alargamento de dois metros e meio, na zona compreendida entre o estaleiro da Sociedade Loureiro & Filhos (actual localização do Hotel do Mar) até ao Largo da Marinha.

Planos Gerais de Urbanização

Em Dezembro de 1934, o ministro Duarte Pacheco publica o Decreto que institui a figura dos Planos Gerais de Urbanização: as Câmara Municipais ficam obrigadas a submeter à apreciação do Governo, pelo MOP, no prazo de três anos, a contar da data de conclusão das respectivas plantas topográficas, os planos gerais de urbanização elaborados nos termos do Decreto-Lei 24.802, de 21 de Dezembro de 1934.

Em 1936 o número de forasteiros que procura Sesimbra durante as férias aumenta substancialmente: “está adquirindo foros de acontecimento sensacional a procura de casas pela parte dos banhistas”, refere O Sesimbrense. Em Abril deste ano dá-se a abertura da Pensão Chic, no Largo da Fortaleza, uma iniciativa de José Miguel Dias.

Embora tenha mandado elaborar a planta topográfica da vila, conforme determinava o decreto de 1934, a Câmara não dá seguimento à elaboração do plano de urbanização. Quando, em Maio de 1938, a Câmara pede ao Estado comparticipação para o prolongamento da Esplanada do Atlântico, é surpreendida pela pergunta sobre se Câmara ainda “não possui planta que há-de servir de base ao futuro plano de urbanização”.

Isto parece ter levantado o alarme no Município que, em Julho, dirige ao Ministro das Obras Públicas uma longa carta onde diz que “tendo ponderado as mais urgentes necessidades locais e feito um sumário estudo da topografia da Vila” (...) e submete “algumas directivas a que o mesmo deve obedecer, e que são:

A - Uma via de comunicação atravessando centralmente a vila com direcção Norte-Sul.
B - Uma via de comunicação marginando a praia em toda a extensão.
C - Uma via de comunicação dando acesso à encosta do Castelo.
D -Transformação e regularização de alguns largos e ruas.

Em Agosto, o próprio ministro Duarte Pacheco responde à Câmara:

“Merece louvor a iniciativa da Câmara de Sesimbra de promover a elaboração do plano de urbanização da Vila de Sesimbra. E podem ser utilmente aproveitadas as indicações fornecidas pelos técnicos que a Câmara encarregou da elaboração do referido plano. Dada a circunstância de se poder vir a reconhecer, por um estudo mais profundo do assunto, a conveniência de alterar num ou noutro aspecto dessas indicações, conviria adiar a realização das obras previstas para depois de estar aprovado o plano geral. Nestas condições o Governo prestaria o seu concurso financeiro à Câmara de Sesimbra, nos estudos e, em certa medida, nas obras.”
Despacho de Agosto de 1938, do ministro Duarte Pacheco, incentivando a Câmara a promover um Plano de Urbanização, para elaboração do qual ele próprio virá a indicar o arquitecto Paulo Cunha.

Plano de Urbanização de Paulo Cunha

É o próprio Ministro quem quem indicará à Câmara o nome do arquitecto Paulo de Carvalho Cunha para realizar o Plano de Urbanização da Vila de Sesimbra: este apresenta uma proposta no dia 4 de Novembro, que a Câmara de Sesimbra delibera aceitar ainda nesse mês.

No final deste ano de 1938 trabalha-se intensamente na realização de trabalhos topográficos e em Outubro a Câmara comunica ao Governador Civil que já tem pronto “o projecto da Avenida Parque (Avenida Boa Esperança)”. Quando, em Fevereiro de 1940, o regime inquire as Câmaras sobre quais as obras realizadas “durante a Gloriosa Revolução Nacional”, a de Sesimbra inclui a Avenida Parque, mas “a realizar” em 1941. Em entrevista a’O Sesimbrense, Joaquim Preto Chagas especifica qual o objectivo desta avenida:

"Teremos uma via de comunicação, com cerca de 1.500 metros, atravessando a vila na direção Norte-Sul, projectada no vale do ribeiro da Misericórdia, e que, partindo do actual campo de jogos do União Foot-ball Cezimbra, irá desembocar na Esplanada Atlântico.

Para o efeito, a Câmara vai adquirir a vasta Quinta de Vila Amália, onde, no terreno sobrante ao leito da futura avenida, começaremos a imediata plantação de um núcleo florestal, com características de parque, que tão útil é para recreio da população.

No prolongamento do mesmo terreno, será construído um amplo edifício escolar, reservando-se outra parte para ser vendida em talhões, para construção de edifícios particulares, que ficarão ligando a mesma avenida."

A nova via estava baptizada: seria “Avenida da Boa Esperança”, nome da barca do arrais Alberto Pitorra, herói do salvamento de numerosas vidas durante o vendaval de 9-4-1934, designação que logo em Maio desse ano foi atribuída à travessa da República, a qual virá a ser integrada na avenida. Mas a nova artéria também aparece também designada em alguns documentos da Câmara como “Avenida Parque”, indicando o desejo da sua intensa arborização, que é visível nos desenhos do novo Plano.

O Plano de Urbanização de Paulo Cunha aparece referido, em algumas publicações, como tendo sido elaborado em 1945, mas é seguramente mais antigo, pois uma planta de conjunto do Plano já aparece publicada na Monografia de Sesimbra, de 1941.

Sabemos, por uma planta em que são identificadas as áreas a demolir, que este Plano previa a demolição de uma parte importante da zona antiga de Sesimbra, nomeadamente todo o quarteirão entre as ruas 31 de Janeiro e da Fortaleza.
Plano de urbanização de Paulo Cunha (1940), prevendo a demolição de importantes zonas do núcleo urbano antigo (assinaladas a amarelo).

Um dos elementos centrais do plano é, portanto, a Avenida Parque — conceito que já tinha sido definido pela Câmara, ainda antes das adjudicação do Plano, mas que Paulo Cunha irá consagrar nas suas propostas — desenvolvida segundo os pressupostos do movimento City Beautiful, com os seus eixos viários simétricos relativamente a esta avenida, com uma rotunda e uma crescente arborização de sul para norte, desenvolvimento coroado pelo Campo de Jogos. Hoje, a única coisa que ficou deste conceito de boulevard, é a Mata da Vila Amália.
Mata da Vila Amália: restos da "Avenida Parque" sonhada por alguns sesimbrenses. Mais imagens aqui e aqui.

A expansão da vila é proposta para a zona a poente, entre a Fonte Nova e Palames, com localização de uma grande piscina na Prainha, entre os morros do Macorrilho e Alcatraz.

O volume de demolições previstas neste plano, só por si, seria suficiente para o classificar como irrealizável, dados os seus custos, incomportáveis para a Câmara Municipal. Em 1945 surgem publicamente indicações de que o Plano será abandonado, e um novo arquitecto – Carlos Negrão – será encarregue de elaborar novo Plano, em Novembro desse mesmo ano

Plano de Urbanização de Carlos Negrão

O Plano de Carlos Negrão retoma alguns dos pressupostos do Plano anterior, mas com uma diferença substancial: as demolições são reduzidas ao mínimo. Mantém-se o conceito da Avenida Parque, mas o desenho simétrico surge agora amputado no lado nascente. O "L" formado pela nova avenida e pela Esplanada do Atlântico surge vocacionado para uso turístico, com instalação de diversos equipamentos, tais como uma grande central de camionagem, ocupando a zona marginal no Largo de Bombaldes, e o Clube Naval, um pouco mais a nascente.
Plano de urbanização de Carlos Negrão (1950).

Para a zona poente da vila, Carlos Negrão propõe um desenvolvimento semelhante ao de Paulo Cunha, com ocupação de baixa densidade, igualmente de natureza turística, com dois miradouros.

( continua )


Nota: as imagens apresentadas são do Arquivo Municipal de Sesimbra, com excepção das fotografias da Mata da Vila Amália.

Texto modificado em 11 de Maio de 2016